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Cana invade zona biodiversa do cerrado
Levantamento indica que 142 mil hectares de áreas prioritárias para a conservação viraram canavial na safra 2006/2007
Em Sertãozinho, interior de SP, duas áreas classificadas pelo governo federal como altamente prioritárias para conservação têm plantações

Bóias-frias em canavial na região de Ribeirão Preto (SP), área cuja vegetação nativa é o cerrado


PABLO SOLANO
DA AGÊNCIA FOLHA

Uma total de 142 mil hectares de cerrado -o equivalente ao tamanho da cidade de São Paulo- considerados prioritários para abrigar unidades de conservação foram transformados em canavial na safra 2006/2007. Os dados são de estudo do ISPN (Instituto Sociedade, População e Natureza).
O cerrado é o segundo bioma mais ameaçado pelo desmatamento no Brasil. Com 39% de sua área desmatada, fica somente atrás da mata atlântica, da qual restam de 7% a 24% (dependendo da conta que se faça). Ambientalistas temem que a febre dos biocombustíveis acelere a devastação do cerrado e empurre a pecuária de lá para a Amazônia.
O Ministério do Meio Ambiente atualizou em 2007 seu mapa das áreas dos vários biomas brasileiros que devem receber prioridade para o estabelecimento de unidades de conservação pelo Instituto Chico Mendes. Foi nesse mapa que se baseou o estudo do ISPN.
Os dados da atualização foram cruzados com informações do Canasat, um sistema de sensoriamento remoto criado para mapear as áreas com canaviais em oito Estados brasileiros.
A lista é liderada por São Paulo (86 mil hectares desmatados), seguido por Minas Gerais (25 mil), Goiás (13 mil), Mato Grosso (12 mil) e Mato Grosso do Sul (6.000).
Para o coordenador de política públicas do ISPN, Nilo D'Avila, a solução para o problema depende de políticas do governo federal para incentivar a expansão da cana em áreas subutilizadas por outras culturas.

Sertãozinho
Segundo o estudo do ISPN, 60,5% do desmatamento em áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade no cerrado ocorreu no Estado de São Paulo -maior produtor de açúcar e álcool do país.
Na região de Sertãozinho, por exemplo, duas áreas consideradas prioritárias para a preservação, uma classificada pelo Ministério do Meio Ambiente como "extremamente alta" e outra como "muito alta", estão sendo ocupadas pela cana.
Dentro da área de prioridade "extremamente alta" funciona uma usina. Além disso, outras duas usinas funcionam nas proximidades, o que impulsiona a devastação. De acordo com D'Avila, as áreas podem receber parques de suporte à reserva biológica de Sertãozinho, uma unidade de conservação já estabelecida no local.
Ambas, de acordo ele, poderiam ser ligadas à atual reserva biológica por meio das matas ciliares e dos rios da região e colaborariam para preservar as espécies locais.
D'Avila também afirma que a região é importante para a preservação de características da transição entre a mata atlântica e o cerrado.

Goianésia
Apesar de São Paulo concentrar o maior índice de desmatamento do estudo, o Centro-Oeste é apontado por D'Avila como a região onde existem mais áreas com características originais de cerrado que podem ser desmatadas.
Ele aponta como exemplo as proximidades da cidade de Goianésia, no Estado de Goiás, onde o avanço dos canaviais coloca em risco atividades agroextrativistas na região.
"Lá existe uma série de produtos muito consumidos regionalmente e que sustentam quantidade significativa de famílias", afirma D'Avila.

Efeito sobre a Amazônia é indireto
DA AGÊNCIA FOLHA
O avanço do álcool não deve atingir diretamente a Amazônia, mas pode colaborar para o seu desmatamento, afirma o coordenador de políticas públicas do ISPN, Nilo D'Avila.
A alta incidência de chuvas na floresta é considerada pelo setor agrícola como um fator desfavorável para a produção de cana.
De acordo com D'Avila, a expansão canavieira no Centro-Oeste, onde há condições favoráveis para o cultivo, está valorizando áreas ocupadas pela pecuária, o que incentiva os criadores de gado a vender terras para canavieiros.
Capitalizados, os pecuaristas teriam como opção comprar terras na região amazônica. Áreas no Pará estão livres da febre aftosa, o que favorece a pecuária.
Sobre o potencial da migração da pecuária do Centro-Oeste para a Amazônia, D'Avila lembrou da brincadeira que aponta Paragominas, no Pará, como "a segunda maior cidade goiana". (PS)


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