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CANA-DE-AÇUCAR NO PONTAL

O povo vai “entrar em cana”

A cana-de-açúcar avança na ilegalidade. Há plantio até mesmo em áreas de Preservação Permanente. As usinas são implantadas sem nenhum estudo de impacto ambiental.
Aumento do desmatamento. Já foram detectados em nossa região crimes ambientais (árvores são enterradas a noite em algumas propriedades rurais).
Várias usinas estão despejando um resíduo chamado “vinhoto” no solo, acarretando a contaminação do lençol freático e do aqüífero. Haverá a contaminação do solo também com agrotóxicos.
Há o problema da queima da cana com conseqüências diretas ao solo e a população rural e urbana (gases tóxicos), devido ao clima seco e quente. As queimadas provocam o aquecimento da atmosfera provocando mudanças climáticas.
O Estado tem se mostrado incapaz de prevenir a degradação ambiental; há ausência quase que total de fiscalização. Os órgãos ambientais estão sucateados e sem perspectivas.
Não haverá geração de emprego na região. A mão-de-obra barata vinda de outros Estados terá a preferência. A vinda de cortadores ocasionará inchaço nas cidades. Haverá déficit no atendimento às necessidades básicas (saúde, moradia, etc). A médio prazo as máquinas substituirão os trabalhadores.
As terras ficarão improdutivas com pouco tempo.
Hoje vemos a expansão da cana, amanhã veremos o seu declínio. Como ficará esta região, já considerada a segunda mais pobre do Estado?
Haverá o empobrecimento da biodiversidade com a monocultura.
As empresas (usinas) não vão recuperar a degradação ambiental.

 O POVO DO PONTAL VAI “ENTRAR EM CANA”

            Nós, da Comissão Pastoral da Terra, presente e atuante  em 12 regionais do Brasil, conhecemos de perto os problemas advindos da nefasta expansão do latifúndio canavieiro em nosso país, patrocinada pela política internacional do aumento do consumo do álcool. Agora é a vez do Pontal.  
Primeiro, o “canto da sereia” era o desenvolvimento do pontal com presídios para a região. Todos os que “estavam em cana” viriam para a região. Seriam aplicados recursos e compensações nas cidades, entretanto, cresce o tráfico na região, o número de assaltos e a insegurança. Nossa região cresceu em outro sentido.
Agora o Pontal vai “entrar em cana”. Em outras palavras o povo se tornará refém dos usineiros. Este processo de expansão é intrinsecamente maléfico porque baseado na exploração e na violação dos direitos humanos sociais e ambientais. O agronegócio é um fenômeno econômico gerador  de desigualdade social, de degradação ambiental e trabalho escravo, como  sua faceta mais trágica.
            O governo atual favorece este processo, com perdão e renegociação de dívidas e várias formas de subsídios e financiamentos, premiando oligopólios que cresceram sob os auspícios da grilagem e concentração de terra, de fraudes e desvios de dinheiro público, da impunidade em casos de violência contra os trabalhadores e trabalho escravo. 
O Governo mostra incompetência em resolver o problema da grilagem. Contra a reforma Agrária legaliza o grilo no pontal, regularizando áreas devolutas acima de 500 hectares. Os latifundiários que se apropriaram da Terra do Estado (do povo) não obedeceram à ordem pública, não respeitaram as autoridades,  ignoraram as leis  e agora recebem de presente a regularização. Tudo isto tem o nome de “desenvolvimento do pontal”. E o povo? Seguindo a lógica da atual política “vai entrar em cana”.
Até o momento o que vimos no campo político em nossa região foram interesses escusos patrocinados por pessoas afinadas, infelizmente, com o “adormecimento” da consciência, frieza e alienação diante do sofrimento humano.
É visível a presença de políticos que defendem a monocultura da cana-de-açucar, são os “velhos demônios” do pontal. Estes pregam o desenvolvimento que não contempla a pessoa humana e o meio ambiente mas simplesmente o econômico.
            De nossa parte, resta-nos a esperança de que a lideranças afinadas com o pensamento cristão e ecológico possam ajudar na efetivação da Reforma Agrária bem como promover o respeito ao Meio Ambiente que em nossa região vem sendo agredido pelo impacto da cana. Cremos num novo céu e numa nova terra, num tempo novo no qual "as coisas antigas nunca mais serão lembradas" (Is 65, 17). (Pe. Jurandir Severino de Lima, Coordenador Diocesano da CPT)


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