Todos nós já tivemos
nosso dia de "sem-terra"
SEM-TERRA NÃO TEM PÃO
Sou Coordenador da Comissão Pastoral da Terra, da Diocese de Pres. Prudente/SP. Estou trabalhando há alguns anos com famílias que moram às margens de nossas Rodovias, sob barracos de lona, em busca da terra tão sonhada e prometida. Algumas famílias vivem nesta situação há aproximadamente cinco anos, outras quatro, três...
Venho através desta partilhar minha alegria de estar perto de gente tão corajosa e que muitas vezes são discriminadas pelos meios de comunicação social (rádio, TV, Jornal, etc), ao mesmo tempo relato com tristeza a situação tão precária pela qual passam essas famílias com a falta de trabalho, alimentos, medicamentos, vestuário etc.
Sou testemunha da luta deste povo nesta região onde reina o latifúndio. Suas lideranças, em sua maioria jovens, vem abraçando com muita coragem a luta pela reforma agrária aqui no pontal do Paranapanema. Mesmo com uma política contrária à partilha da terra, instalada em vários seguimentos desta região, a resistência dessa gente é espantosa. Lembro-me aqui das muitas pessoas que encontrei nesse meio: agricultores, desempregados de várias comunidades, catequistas, jovens da PJ, etc; gente pobre, isto é, empobrecidas, “engolidas” pelo sistema. Gente que alimenta o sonho de uma “terra para viver”.
Temos em nossa região vários acampamentos de Movimentos Sem-Terra, ao todo se somam mais de 1.000 famílias embaixo de lonas nas rodovias. Em minhas constantes visitas me deparo, às vezes, com situações inusitadas: vi, certa vez, uma senhora com uma lata de óleo, passando de barraco em barraco, colocando em uma xícara, um pouco do óleo que havia ganhado. Quando a interpelei dizendo que o gesto era muito bonito, ela me respondeu: “este gesto é muito comum entre nós. Não tenho muito, mas partilho algo com eles e eles fazem o mesmo por mim...”. Neste dia aprendi que mesmo tendo pouco, devemos olhar para a mesa do lado e compadecer-se.
POBREZA. Vemos com tristeza a dura realidade do desemprego e da fome no Brasil, em especial aqui no Pontal. Causa-nos tristeza tantas famílias feridas em sua dignidade. Vendo a sua situação, ouvindo os seus clamores e conhecendo seu sofrimento, escandaliza-nos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má distribuição dos bens e da renda.
Aqui, como em outros lugares, a injustiça social assume proporções de ofensa a Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, e se opõe ao mandamento do amor que Jesus instituiu. E o mais triste para nós é o fato de que a escandalosa desigualdade acontece, infelizmente, por causa do “adormecimento” da consciência, frieza e alienação diante do sofrimento humano.
ACAMPAMENTOS. Nos acampamentos existe divisão de serviços. É algo organizado. Existem equipes para saúde, para alimentação, vigilância do local, lazer etc. Tudo é decidido em assembléias: desde tratamento de doentes, viagens, trabalhos, até o comportamento moral.
Muitas mulheres se destacam nos acampamentos. São consideradas líderes, e possuem grande influência nas decisões. São elas as responsáveis, em grande parte, pela estrutura de partilha dentro dos acampamentos. Estão sempre presentes nas reuniões de decisões mais sérias. Muitos acampamentos levam o nome de mulheres (Margarida Alves, Dorcelina Folador, Roseli Nunes, Dona Carmem, etc). Estes nomes são símbolos de luta e resistência.
Os barracos são feitos, em sua maioria, de lona preta e abrigam desde crianças recém-nascidas até anciãos. A temperatura, dentro do barraco, varia de 38º a 42º graus. Talvez seja esta situação a responsável por crianças doentes. No inverno, a lona provoca um frio intenso. Quando acontecem as chuvas, logo recebemos notícias de que precisam de mais lonas, porque o vento destruiu o barraco e o pouco que possuem está na chuva. Esta situação é muito freqüente.
A água utilizada no acampamento é vinda de poços, perfurados pelo próprio povo. Em alguns lugares a água provém de alguma mina próxima ao acampamento. A água não recebe nenhum tipo de tratamento.
As famílias convivem com situações de risco, pois vivem às margens da rodovia e próximo ao mato. Há pessoas que são picadas por cobras, aranhas, insetos estranhos. O socorro é feito freqüentemente por algum veículo existente no acampamento. Quando não há, apelam para algum carro na rodovia.
Muitos homens do acampamento durante a semana trabalham em roças (épocas de plantio e colheita). Eles ganham a “diária” (de R$15,00 a R$20,00). Esse tipo de trabalho dura poucos dias, devido ao grande contingente de desempregados na região.
Nos acampamentos as famílias convivem com o “terror do despejo”, promovido pela DER (Departamento de Estradas e Rodagem). Segundo este órgão, as famílias não podem permanecer nem mesmo às margens da rodovia. Para onde irão?
Há uma parcela de bons jornalistas, estudantes e algumas faculdades que se interessam pelo assunto da Reforma Agrária. Vemos que indiretamente colaboram com a luta através de reportagens, debates, mas não é o suficiente. É necessário o empenho de toda a sociedade para amenizar esta situação, ajudando e cobrando do governo uma política mais efetiva. Esta gente é uma referência para a urgente necessidade da organização popular. É um suspiro de utopia e transformação que precisamos ter a coragem de buscar.
IMPRENSA. Tenho acompanhado as atitudes tão agressivas por que passam estas pessoas. Há uma “onda de desmoralização” desse movimento social, como já disse, pela TV, Rádio e Jornal. Em nossa região, com raras exceções, esses meios de Comunicação estão nas mãos de pessoas descomprometidas com o povo ou aliadas ao grande latifúndio.
POLÍTICA. Há uma morosidade muito grande, por parte dos órgãos competentes, em relação aos futuros assentamentos de famílias, bem como sobre a política agrícola. Nesta época de eleições, os órgãos competentes, que poderiam fazer avançar as negociações de áreas para a Reforma Agrária, estão mais preocupados em “fazer Campanha para o Governo”, dispensando tempo para palanques de políticos afinados com “política conservadora do local”. Tudo isso desencadeia um mal estar nos movimentos sociais, que querem ser atendidos em suas reivindicações antes do final das eleições. As promessas, apresentadas nas negociações, são prolongadas constantemente, desgastando assim as expectativas de soluções.
SOLIDARIEDADE
Nossa diocese tem acompanhado essas famílias através da CPT e de um projeto missionário criado a mais de um ano (1 padre liberado e 2 irmãs). Várias paróquias da diocese tem se mobilizado para sanar situações emergenciais com coleta de alimentos, roupas, remédios para os acampamentos. O resultado tem sido positivo, entretanto, não o suficiente. Queremos pedir a sua Colaboração, acreditando que pessoas, mesmo distantes, sensíveis à luta, possam ajudar.
“Onde encontrar um irmão, a chorar de tristeza, sem ter voz e nem vez. Quero bem no seu coração semear alegria pra florir gratidão. Mestre, que eu saiba amar, compreender, consolar e dar sem receber. Quero sempre mais perdoar, trabalhar na conquista e vitória da paz”.
(São Francisco de Assis)
DEUS O ABENÇOE! – Pe. Jurandir.
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